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Aperitivo Edição 00: Perfil com Luma Andrade

07/08/2009

Imagine quão difícil é para uma travesti terminar os estudos atualmente no Brasil, sobretudo em escolas públicas. Agora imagine terminar os estudos, cursar gradução, mestrado e chegar ao doutorado. Essa conquista tem nome: Luma Andrade.

Confira abaixo um aperitivo do perfil produzido com a professora de biologia; assessora técnica da 10ª Crede, responsavel por 26 escolas em 3 municípios; e doutoranda em Educação, Luma Andrade, uma história de superação.


luma andrade

Luma Andrade

“Sim, nós podemos”

Sim, Barack obama utilizou este lema antes de nós. O atual presidente dos Estados Unidos, em sua campanha eleitoral, ergueu, com esta frase, a bandeira de que todos temos potencialidades, de que somos capazes e ativos. Contudo, nossa entrevistada, Luma Andrade, reforça de tal modo esta expressão que não nos foi possível utilizar outra. Para além do título de primeira travesti do Brasil a fazer um doutorado – já suficiente para admirá-la – “Sim, você pode” é a mensagem estampada na história não de João Filho Nogueira de Andrade (seu nome de batismo), mas de Luma Andrade que, desde a infância, por parecer e, posteriormente, assumir-se diferente, teve a vida pautada por duas palavras: preconceito e superação.

Luma é elegante, fala baixo e educadamente. É ordenada quando discursa, hábito de quem precisa estar sempre pronto para contar sua história sempre que necessário. A vida emerge em rapsódias, uma colcha de retalhos formados literalmente de fibra. Fala pouco da vida pessoal: amigos, amores, sentimentos. O contentamento provém do trabalho e dos estudos, intercalados – sempre – de discriminação e vitória. É sobre isso que fala, é disso que recorda. Apanhava dos colegas, mas era a melhor da classe; não foi aceita para lecionar na Universidade, mas foi a única aprovada no concurso para professores do Estado. Dificuldades e recompensas… A vida de Luma segue como um rio por entre as pedras: quanto mais obstáculos, com mais vigor correm as águas. Luma resignifica a palavra “resiliência”.

Cearense, nascido em Morada Nova, João Filho Nogueira de Andrade era o menino que sua mãe, Maria Nogueira Gomes, tanto quisera depois de três filhas. João Filho, no entanto, era fruto de um outro relacionamento. Na adolescência, a mãe de Luma conheceu um rapaz em Quixadá, casou-se e com ele teve três filhas, a união, no entanto, não durou muito. Ao separar-se, Maria Nogueira levou consigo duas filhas e quis voltar para casa, mas seu pai a rejeitou, alegando que acolher uma mãe solteira seria vergonhoso para a família. Em Morada Nova, um senhor, já mais velho, casado, comerciante no mercado da cidade, ofereceu-lhe uma casa para alugar. Segundo Luma, sua mãe encontrava-se frágil, necessitada de abrigo, e seu pai, encantado com a beleza da moça, propôs tivessem um relacionamento em troca do aluguel.

João Filho nasceu depois, quando o pai já estava mais presente em casa, tendo, de certa forma, se distanciado da esposa. A boa condição financeira do comerciante, no entanto, era ofertada à primeira família e não a de Luma. De acordo com ela, o pai lhes dava o básico: “ele jogava o dinheiro da merenda, do almoço, ele, de certa forma, humilhava minha mãe pra poder dar as coisas, alimentação, vestimenta…”. Sua mãe foi a grande motivadora de seus estudos, analfabeta e filha de analfabetos, Maria dizia que nada tinha a oferecer aos filhos, estudar era a única forma de mudarem de vida, e João Filho levou a sério estas palavras.

Logo encontrou nos estudos sua fuga. Canalizava neles a energia de um desejo notável desde cedo: “a atração pelo outro, o outro que era o igual”. Quando pequeno, o menino João Filho era confundido com uma garota, dada sua aparência, de fato, bastante feminina. A mãe gostava de conservar longos os cabelos do menino, ao passo que o pai exigia que fossem cortados, irritado com os comentários dos vizinhos. Na escola, nas brincadeiras infantis, desde então, Luma já se percebia diferente, e se sentia não apenas contente, mas realizada, em ser a noiva, a esposa, a mãe. Com a diferença aparente, vieram as mostras de preconceito.

Ainda que Luma gostasse de ser confundida com uma menina, de ter gestos femininos, o pai e os colegas não admitiam isso. “Quando a gente é criança, nós somos puros, a gente não tem noção dessa hegemonia que já está construída. O menino tem que ser macho; a menina, mais sensível… Desde criança somos adestrados a agir dessa forma” teoriza Luma, “quando uma mulher está grávida a primeira pergunta é: ‘qual é o sexo? É menino ou menina?’, a partir daí já vai haver uma definição do início ao fim da vida desse individuo, algo que está construído para ele seguir, e se ele não seguir, será penalizado”. Assim aconteceu com João Filho, que revidava a punição com conhecimento. Conquistou seus amigos pelas aulas de reforço que lhes dava, já que, muitas vezes, tinham vergonha de dizer aos professores que não compreendiam as explicações, e se sentiam mais à vontade em tirar suas dúvidas com Luma. Aos 10 ou 12 anos, descobria sua vocação para lecionar. “Inicialmente, os meninos me batiam, não aceitavam minha forma de ser, mas quando percebiam minhas notas, eles passavam a ter admiração e tinham a humildade de me pedir ajuda”, relembra; para Luma, as pessoas que sustentam essa “hegemonia dos iguais” acabam dando abertura ao diferente quando se percebem necessitadas dele. Com o tempo, o garoto “estranho”, mas aplicado, começou a notar uma mudança de comportamento, afirmada numa parceria despropositada entre os colegas: eu lhes ensino e vocês me protegem, “isso acontecia de forma inocente, não era estabelecido, talvez até por consciência mesmo, [eles pensavam] ‘ah, poxa, não é correto. Se ele está nos ajudando, sempre que a gente precisa ele está ali, então vou ajudá-lo também’”.

Quer ler o perfil na íntegra? Aguarde o lançamento da Revista Nuance, em setembro de 2009!!!

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